«rolaremos no declive suave da parábola.
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Comprámos recentemente a um alfarrabista a tradução portuguesa do SCUM Manifesto de Valerie Solanas, editado pela Fenda em 2001. Eu sabia que queria usá-la no meu próximo grupo de conversas, novamente dedicado aos USA, mas a motivação para a procurarmos agora foi o facto de o Ricardo ter descoberto que uma encenação da Medeia usara excertos do texto de Solanas. Ele acabou por decidir que não precisava de o usar nestas sessões, por isso, em outubro e novembro, usarei eu, a ler «Mais referências LGBTQ na literatura inglesa: Estados Unidos da América», para completar a cronologia que começámos a fazer no início deste ano. Curiosamente, não foi a única vez que pensámos em Solanas esta semana. Tentando ler em conjunto ensaios recentes em inglês que têm estado disponíveis na aberta, Maria Eduarda Dias e João Paulo Guimarães sugeriram-nos organizar cá o seu grupo de leitura «Contra Anatomias: Leituras em Estudos Queer e Humanidades Médicas». Na próxima quinta-feira, acontece a primeira sessão, dedicada a Females, livro de Andrea Long Chu editado em 2019 e reeditado este ano com um novo posfácio. No início da obra, Chu aponta Solanas como uma inspiração, especificamente a peça Up Your Ass. Solanas reinou belissimamente no tipo de texto que é manifesto absurdo e para ser levado a sério ao mesmo tempo, costumo na brincadeira dizer que o seu SCUM é um incrível exemplo de stand-up comedy e Chu abre Females com um tipo de ironia semelhante. Se leram Females e quiserem juntar-se a nós, acontece no dia 24 de julho, às 18h.
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Quando, a celebrar o primeiro aniversário, começámos as conversas na livraria (para quem possa não estar familiarizado, chamamos as «conversas» aos grupos de leitura e discussão organizados por nós, duram seis semanas consecutivas, quatro vezes por ano, um tema a cada estação), acabei por ser eu a fazer sozinho esse primeiro ano, do verão de 2022 à primavera de 2023, maioritariamente com referências LGBTQ da literatura portuguesa. Um ano depois, no entanto, o Ricardo começou a ter interesse em envolver-se mais em algo que tanto prazer nos estava a dar e, no quinto grupo, no verão de 2023, dividimos as tarefas: lemos literatura clássica (os grecolatinos), eu fiz as sessões de poesia e prosa e ele as de teatro (foi a primeira vez que pegámos num excerto da Medeia, por exemplo, que agora estamos a ler na íntegra; ele leu então, de Eurípides, excertos de três tragédias – As bacantes, Hipólito e Medeia – e, de Aristófanes, excertos de três comédias – As nuvens, As mulheres no parlamento e As mulheres que celebram as Tesmofórias
interrompo porque sinto que, tal como anunciei aqui a estreia em Lisboa há um mês, é justo dizer que já foram divulgadas datas no Porto para o espetáculo As mulheres que celebram as Tesmofórias de Odete
). Logo a seguir, no outono de 2023, organizou também um grupo para lermos cinco dramaturgos e uma dramatuga do século XX, de diferentes países, e vimos pela primeira vez muitos excertos de filmes que eram adaptações das peças. No verão passado, no nono grupo, leu a Antígona de Sófocles, em parte motivado pela edição da Orfeu Negro de A pretensão de Antígona de Judith Butler, e foi a primeira vez que usámos as seis semanas de conversas para ler uma obra na íntegra. Logo a seguir, no outono de 2024, fez o grupo da literatura infantil para adultos e agora está a terminar o décimo terceiro grupo sobre a Medeia, até ao fim de julho (por mero acaso, também este ano a Orfeu Negro editou um livro que já nos ajudou, o Em nome do bárbaro de Louisa Yousfi): faltam apenas as sessões de terça 22 e 29, às 18h. Esta semana, por entre visões de Medeia como curandeira e sofista, acabámos a falar de um documentário do ano passado, o Witches de Elizabeth Sankey: só nesse momento, e era aqui que queria finalmente chegar, percebi que estávamos a acrescentar ao que tínhamos falado sobre papéis de género e a imagem da bruxa nos contos infantis. Eu e o Ricardo falamos muito sobre a ideia de reunir e acrescentar ao que foi feito, quando discutimos coisas da aberta. Permitirmo-nos o tempo (a distância) de ter essa consciência é muito provavelmente a minha coisa preferida na vida.
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No fim do primeiro semestre (no meio de tanto balanço «apocalíptico», como nos disseram), ainda conseguimos parar e olhar para os livros que mais circularam por aqui desde o início do ano, gostamos destas listas porque elas são um reflexo bastante justo das pessoas que nos andam na cabeça em determinado período de tempo. Então, aqui fica – no primeiro semestre de 2025, estes foram os títulos mais vendidos na aberta:
01. Rute Bianca, Quem? (edição própria, 2025)
02. Pedro Leitão, disturbia: um roteiro para o passado LGBTQ do Porto (edição própria, 2024, reimp. 2025)
03. Camila Sosa Villada, As malditas, trad. Helena Pitta (BCF, 2022, reimp. 2024)
04. Joana Estrela, Propaganda (Chili Com Carne, 2025)
05. Quiseram enterrar-nos: não sabiam que éramos sementes (ou alguma poesia gay europeia), org. Ricardo Marques (edição própria, 2025)
06. António Fernando Cascais, Estar além: a persona queer de António Variações (Edições 70, 2025)
07. Dissidências e resistências homossexuais no século XX português, org. António Fernando Cascais (Letra Livre, 2024)
08. Rafa Jacinto, Európio (Flan de Tal, 2025)
09. Amândio Reis, Vidas de Lázaro (Bestiário, 2025)
10. Odete, As mulheres que celebram as Tesmofórias (TNDMII / Bicho-do-mato, 2025)
O segundo semestre levou-me o cabelo, mas já nos trouxe algumas surpresas: nova visita da Jó Bernardo para nos trazer nova remessa de exemplares da autobiografia da Rute Bianca (reimpressa e novamente disponível); planos bonitos para os próximos tempos; e até a criação de uma nova editora. Conhecemos Mateus e Rodrigo como clientes. Entram, compram as suas coisas, partilham algumas palavras, um sorriso tímido e vão de volta, moram longe. Até que um dia ficam um bocadinho mais e contam-nos que estão a abrir uma editora. Tento fazer o que pessoas melhores do que nós fizeram por nós há quatro anos, ao abrirmos a livraria: ofereço toda a ajuda e conselhos e dicas que precisem – porque lemos livros, porque os escolhemos, os vendemos e porque, na loucura, gostamos muito deles –, mas rapidamente percebo que o plano está já traçado e, deixem que vos diga, muito bem traçado. A editora chama-se Laika e arrancou no início de julho de 2025 com dois títulos: o romance O som do ruído da onça de Micheliny Verunschk, com capa ilustrada por Joana Estrela, e o livro de poesia Alecrim recém cortado de Juan Carlos Panduro em tradução de Ana Filipa Pires, com capa ilustrada por Diogo Potes. Conhecia o livro de Panduro por vendermos o original Romero recién cortao’ da Letraversal e tem sido uma descoberta maravilhosa ler as palavras do jovem de Badajoz (1998) em português. A Laika está a tomar passinhos certos, seguros (eles certamente diriam o oposto, mas nós somos os nossos piores críticos). Da minha parte, já precisava de uma pequenina lembrança de como ainda há coisas boas a acontecer e por acontecer. Hoje despeço-me, claro, com seis poemas do Alecrim. Na minha próxima carta, a um de agosto, aviso da pausa e mudanças de horário durante o resto do verão. Até lá, o trabalho continua.
um nome de virgem
eu que com a água da minha boca
penteei as flores feias
de outras varandas
esperei que a lua nascesse
e uma pequena navalha, navalhinha
para cuspir e enterrar a medalhinhaeu que tal como as corujas
venerei os bêbados
de uma mérida em ruínas
e goles de ar adocicado
e jacarandás jacarandás
para cuspir e enterrareu que nasci da própria pedra
rezei a euterpe
rezei a teresa, já santa
eu sou aquilo que os meus pais tocaram
no barro feito de barro
e jacarandás jacarandás de barro
que vai para o forno do pão
e uma pequena navalha navalha para o cortar
de volta à aldeia
para matar o porco
e dormir tranquilo
comer a azinheira
debaixo da azinheira
ser o porco
matar as pessoas
com uma pequena navalha, navalhinha
e dormir tranquilo, tranquilinhotudo de mim
as minhas duas irmãs têm nome de virgem
eu não quero um nome de rei
eu quero um nome de virgem______
este guisado para a criança que tinha olhos de amêndoa e os esses de rezar
pergunto-me se quando eu morrer
comerás as pernas de um cordeiro em pedaços
num molho espesso
numa panela com dois braços
talvez então eu possa estender a minha mão para ti
dar-te um beijo
deixar o meu corpo e entrar no corpo de um cordeiro
já abatido
e que da minha perna saia um guisado para bocas
cheias de campos
que deem trigo que deem pão
e que depois o menino que fui
já morto
oco repouse vazio
e dê os braços e faça crescer ramos de azinheira
e dê a gordura e dê a pele e lhe tire o toucinho
e os porcos virão comer-lhe a cara
e dar-lhes as rótulas e fazer crescer morangos silvestres
não preciso de muitos
mas o suficiente
para encher um cesto de juncos
cortá-los às fatias
e comê-los molhados
em sumo de laranja______
que sorte
quando era pequeno caí de uma amendoeira selvagem
cla cla cla cla
parti a minha perna esquerda em duas partes
igualmente limpas
e puseram-me um gesso de cimento
desde o joelho até ao meu dedo mindinho
era como carregar um homem branco morto às costas
cla cla cla clanão te dizem
quando se parte a perna em dois sítios
que andar vai magoar os braços
como uma procissão metálica
cla cla cla cla
nem que todos os rapazes e raparigas
vão querer vir ver-te
cla cla cla cla
que todos os rapazes e raparigas
vão querer vir ver-te e no teu corpo
escrever o seu nomebem, tenho sorte por a ter partido
cla
que quando eles me escrevem o seu nome
cla
eu faço-os meus para os ter
cla
desde então, como um galgo, magoo um dedo
cla
uma costela flutuante
cla
um pouco o pescoço
cla
ambos os ombros de vez em quando
cla
os pulsos raramente
cla
as costas em geral sempre
cla
quem me dera ter sabido mais cedo______
avó! não me varras os pés, que não me caso!
mas filho
como é que não te vais casar
com essa carinha que me trazes
de cordeiro degolado
se és igual ao teu pai
que costumava virar as ruas de cabeça para baixocomo é que não te vais casar
se tens orelhas como brincos de alquimista
e a cintura de um inseto que pica
e tens os teus lábios prontos
e as tuas bochechas p'ra cima e o teu cabelo encaracoladocomo é que não te vais casar
se nasceste em pleno mês de maio
florzinha da virgem
se não vimos aqui
um comportamento mais felino
e mãos tão campestres
olho-negro e p'ra molhar o pãocomo é que não te casas
se és como o teu pai rapaz
anda vai-te embora
eu estou a limpar
e a ver se sais mais
que conheças alguém______
pela raiz
quem me dera ter um cabelo espetacularmente comprido
que me inundasse os pés
para levar um dia inteiro a escová-lo
e com o último raio de sol
prendê-lo numa trança
p'ra levar a minha mãe pela raizdiriam as velhas vizinhas das janelas
olha para o rapazinho com uma cabeça tão grande
parece-se mesmo com a mãe!
ele sempre foi muito inteligente
mas nunca esteve tão bonito!e eu desfaço a trança
refaço a trança
rompo a trança
toco no meu cabelo até as mãos adormecerem
e já é de novo dia
para sair de novo para a varanda
e deixá-lo cair de novo
como se o céu estivesse a descer pelas raízes______
o jardim da cozinha é uma prisão
os cães com orelhas pintadas
põem a cabeça de fora da torre
p'ra o verem coberto de jasmim
enquanto ele fuma um charuto como quem beija um santoantes que se me acabe a vida, quero fundar jardins
como se fundam conventosfuma
e em cada um deles plantarei alecrim para ti
fuma
e colocá-lo-ei junto a uma fonte que terá o teu nome
e nela os peixes vê como bebem de tifuma
e as pessoas pedirão desejos atirando moedas para essa fonte
e por cada moeda eu desejar-te-ei
e nas cadeiras de ardósia debaixo das romãzeiras
serão dados beijos
e será como se eu os estivesse a dar a tifuma
e poderias
talvez vir na primavera
mas só na primavera
para que o vejas apenas quando está mais belo
e eu pedia-lhes para fecharem os portões
nos dias em que vieres
para que mais ninguém possa entrarvamos?

