Uma vez
«Creio que sou já na idade em que nos repetimos» (Maria Velho da Costa)
1. Tese: que a maior mentira de que nos querem convencer, os da arte de viver bem, é que «só se vive uma vez».
2. Há uns dias, revi o Lolita, o de 1962, e sabia exatamente quando o tinha visto pela primeira e única vez: foi em 2005: ao entrarmos para a faculdade, disseram-nos que víssemos todos os filmes do Kubrick. E pensei: Passaram vinte e um anos: e, de repente, não sabia o que isso era, vinte e um anos.
3. É muito tempo? Pouco tempo? As duas coisas?
4. Porque: se o tempo é uma seta, espacialmente, presa em pleno voo: o que faria sentido é que cada recordação ocupasse um lugar específico, um determinado ponto no ar: e que uma recordação antiga nos parecesse mais distante que uma recente: como uma fotografia que vai perdendo a cor ou o grão. E não é verdade: não é assim que a memória funciona. Tudo é igualmente claro ou impreciso, tudo é simultâneo. O tempo dobra-se e colapsa. Há hoje: e há tudo o que está para trás.
5. No domingo, fiz quarenta anos. Nasci no dia 10 de maio de 1986, sábado, às nove e meia da manhã.
6. Recebi uma mensagem do Jared. Dizia: «you made it! love u, happy birthday!»
7. O Jared vive em Portland, estado do Oregon, costa oeste dos Estados Unidos. Conheci-o em fevereiro de 2007, no message board que havia no site do Rufus Wainwright: o username dele era RebelPrince. Disse-me que era ginasta: e que tinha um dinossauro favorito. Nunca tinha conhecido ninguém que tivesse um dinossauro favorito. E era lindo de morrer: só podia ser sobre ele a canção em que o Rufus cantava sobre um rapaz «with a face made for currency, like a coin in Ancient Rome». Apaixonei-me: claro: imediatamente. Ele não: mas isso não importa. Imprimi fotografias dele, já não sei de onde as roubei: usava-as para marcar livros: às vezes, abro um livro e encontro-o lá. Foi a primeira pessoa a quem eu disse que era gay: antes dos meus amigos, antes de toda a gente. Tínhamos vinte anos, ele e eu.
8. Portland está oito horas atrás de Portugal: o que significa que, se eu acordasse cedo, ainda lhe apanhava o fim do dia: e quando chegava a casa, depois das aulas, dizia-lhe bom dia. Vivia assim, ao longe: com as horas trocadas, matematicamente. Falávamos todos os dias.
9. O plano era: um dia, havíamos de nos encontrar, algures, onde fosse: no meio do mar. Ele queria vir à Europa: nunca veio. E eu nunca fui lá. Eventualmente, percebemos que nunca nos íamos encontrar: e que, de alguma maneira, era essa a forma da nossa amizade: próxima e distante: verdadeira e só verbal: concreta e teórica.
10. Ao fim de algum tempo, deixámos de falar todos os dias: e depois todas as semanas e todos os meses. Crescemos, precisámos menos um do outro: é triste e é assim. Mas ainda penso nele muitas vezes: e fico cheio de ternura pelas pessoas que éramos com vinte anos: «us becoming ourselves together from across the world». Ainda escrevemos um ao outro, duas vezes por ano, pelo menos: no natal, nos nossos aniversários. Escrevi-lhe em abril, disse-lhe: «who would have thought we’d make it to the 4-0s?». E ele respondeu: «here we are, ravaged by time, but mostly the same as always».
11. E eu li: here we are. Talvez seja esse o segredo: estar, e não ser. Como o Dave Longstreth, aqui, a cantar: «change is the only constant law».
12. Quando leio a frase «só se vive uma vez», só consigo ouvir: Escolhe cuidadosamente como vais viver a tua vida: que tipo de pessoa vais ser, o que vais escolher para ti, para a tua vida, como a vais encher, como a vais gastar: vê se escolhes muito e tudo, e, sobretudo, vê se escolhes bem e não te arrependes: vê lá, que só se vive uma vez.
13. Como se nos dissessem: Trata de levar uma vida fácil de entender, lisa, plana, unidimensional: trata de ser uma coisa só: e, sobretudo, não mudes: trata de ser coerente, claro, cumulativo: tudo o que fizeres, faças o que fizeres, tem de ser ao serviço da pessoa que és.
14. E penso no Levi, que há uns meses decidiu que não devia isso a ninguém: ser uma coisa só: ir numa só direção, fincar cada vez mais os pés.
15. Hoje, chegado aqui, não sei o que significa ter quarenta anos: não consigo entender, compreender: não sei pensar esse tempo e medi-lo. Sei que é muito tempo, e sei que devia parecer-me muito tempo: mas não sei o que significa.
16. E não sei se estamos equipados, nós, seres humanos, para números maiores do que dez: para olhar assim para o tempo, ou para percebê-lo dessa forma: espaçado, medido, sequencial.
17. Sei que, quando pensava em mim com quarenta anos, não pensava na pessoa que sou hoje, ou que acho que sou hoje. Pensava em quê, ou em quem? Não sei bem: alguém menos flexível, menos poroso.
18. Se calhar, lembramo-nos vividamente das coisas em que ainda nos reconhecemos: por mais distantes que elas estejam, ou pareçam.
19. Por exemplo: lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi Rufus Wainwright. Foi em 2005. Já estava deitado, era tarde: nesse dia, tinha subido para o meu leitor de mp3 a canção Cigarettes and Chocolate Milk. Ouvi-a em loop: uma hora, ou mais. E pensei: Isto pode-se fazer? Cantar assim, pelo nariz? Ser lasso, barroco, decadente? Claro que tudo isso queria dizer outra coisa, mas eu só ia perceber algum tempo depois.
20. Lembro-me, também, de o Jared me falar de um cantor chamado Mike Hadreas, novíssimo, tinha acabado de lançar o primeiro álbum: chamava-se Learning. Estávamos em 2010. Foi o Jared quem me mostrou-me tanta música que eu não conhecia: CocoRosie, Mika, Chris Garneau, Scissor Sisters. Dessa vez, estupidamente, não lhe prestei atenção.
21. Na canção Whole Life, a primeira faixa do álbum Set My Heart on Fire Immediately, de 2020, o Perfume Genius canta: «Half of my whole life is gone».
22. Mas: o que significa isso? O que é a vida toda, ou metade? O que é metade de um todo sem tamanho certo?
23. O que é olhar para a vida e pensar e calcular: dos anos que me cabem, já gastei metade?
24. Prestemos atenção às palavras: outra tese, porque não? Gastar pressupõe, quase sempre, gastar mal, depredar, desperdiçar. E, se é possível gastar mal, isso significa que há uma forma de gastar bem, de aproveitar. De gastar, mas.
25. No domingo, o Paulo deu-me um livro de poemas que o Tarkovsky pai (Arseni) escreveu para o filho. São poemas de velho, e são tristes: mas de um velho triste que não quer morrer. Ou melhor, que oferece à morte uma vida feliz, cheia até aos olhos: que chega assim à hora do duelo, armado de felicidade ainda, e de espanto.
26. Num dos poemas, ele escreve: «apavora-me deixar aos herdeiros / apenas uma marca imaginária».
27. Noutro, escreve: «As árvores da alameda sussurram / como tochas verdes em chamas. / Eu dou-tas – tu precisas mais do que eu – / vem, toma as árvores que te ofereço. // Leva a minha cidade inteira, é toda tua – / adormecerás na minha relva».
28. No verão de 2008, adormeci deitado na relva do parque Monbijou, em Berlim. Chovia devagar.
29. Todos os pontos até agora, todas as memórias: iguais no tempo.
30. Noutro poema, Arseni Tarkovsky escreve: «Não acredito em pressentimentos, e augúrios / não me amedrontam. Não fujo da calúnia / nem do veneno. Não há morte na Terra. / Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há por que / ter medo da morte aos dezassete / ou mesmo aos setenta. Realidade e luz / existem, mas morte e trevas não».
31. E diziam-me esta semana: Mas não é assim que eu entendo a frase «só se vive uma vez», monoliticamente: para mim, é tudo mais leve, mais despreocupado: mais Azúcar Moreno. E eu: Como se isso vos desobrigasse de olhar para a vida toda: de examiná-la: de decidir se ela foi, e se é, vivida como deve ser. E, logo a seguir: Porquê esta obsessão com o exame, com o balanço? Que sentido é que isso faz?
32. O que os velhos não te dizem quando estás a crescer é que nada é certo, que a idade não traz certezas. Não é assim tão simples. Traz experiência, ou, melhor, traz experiências: mas achar que isso é a mesma coisa é querer ver a vida como uma conta de somar e de subtrair: uma coisa total: que só é possível compreender, que só tem um sentido, nessa totalidade final.
33. Quem pede relatórios de contas? O patrão: e o Deus dos católicos. É o nosso pior impulso: viver como quem trabalha.
34. A verdade, jovens, lamento: é que não há totalidade nenhuma. Aliás, tinha muito mais certezas aos vinte anos do que tenho agora: porque essa é a idade de ser teimoso, de ser uma coisa só, e de sê-lo agressiva, demonstrativamente. Essa é a idade de termos sempre razão: de ganharmos todas as partidas.
35. «Creio que sou já na idade em que nos repetimos», diz o homem (que idade tem ele?) no Maina Mendes da Maria Velho da Costa.
36. Quando achava que ia escrever para o teatro, que ia ser isso a minha vida, escrevi vários textos, punha sempre uma das personagens a dizer: «Eu sinto que me estou a repetir / e não gosto».
37. «Não, não é bem isso que quereria dizer», continua o homem. «Não é ainda a consolada litania dos momentos idos, o comprazimento no anedótico, a caquexia de alma do que se agarra a destroços e os reconta com a candura absurda da novidade e que torna os velhos enfadonhos, repelentes, como uma supuração que não sara, ou insólitos se encontrados pela primeira vez num banco de jardim. É antes o começo da forma envelhecida da esperança, provar com insistência que se foi, que se soube, que junto de nós foi, que não passámos em vão, que estávamos onde foi o terramoto, a morte do parente, a beleza sem turismo duma enseada, os vidros listrados de papel das janelas ameaçadas, guardadores do instante, testemunhas».
38. E a promessa única da vida é: lutar contra isso: contra o dever de memória: contra a necessidade de ser e de provar seja o que for.
39. É como escreve o Tarkovsky pai (ao filho? ao leitor? ou só a mim?): «Uma pequena língua amarela cintila. / A vela goteja, goteja. / É assim que tu e eu vivemos – / as nossas almas ardem, a carne desaparece». Arder: pouco iluminar, não importa. Estar muito: ser pouco, fazer o que der.
40. E, com a vida presa na mão fechada, não vá ela fugir cedo demais, sol, queimadura, água fresca, também escreve: «Chegou o meu aniversário e estou exausto de alegria».
Boa semana,
r


